XVI Expo Otoño –Corrientes-Argentina (23/04/2016)

No Brasil e em boa proporção em toda a América, a maior parte dos bubalinos é destinada à produção de carne. Optou-se como forma de inserção no mercado, dada a similaridade anatômica com a espécie bovina a de se utilizar da mesma cadeia comercial desta última no que se refere ao abate, processamento e distribuição.

A indústria, da mesma forma que os produtores, a fim de evitar maiores investimentos com promoção, desenvolvimento de embalagens e diferenciação de um produto com uma escala pequena, irregular e sem padrão bem estabelecido, igualmente optou por misturar a pequena produção de bubalinos à de bovinos. Na aquisição de animais da espécie bubalina, tomam por base o menor rendimento de carcaça da maioria dos bubalinos, bem como pela maior dificuldade de distribuição de subprodutos como o couro, para promover uma penalização no preço de aquisição do animal, seja em pé, seja na carcaça.

Com a falta de diferenciação, em que pese a potencial boa qualidade do produto, permanece a carne bubalina desconhecida da maioria dos consumidores que, desta forma, não exercem pressão de demanda junto aos distribuidores e frigoríficos.

Em algumas regiões, algumas iniciativas foram e vem sendo adotadas no sentido de promover o produto junto ao consumidor, com relativo sucesso, mas permanece na grande maioria das regiões uma relação conflituosa entre produtores e frigoríficos.

No sentido, buscamos apresentar elementos que possam colaborar com uma melhor compreensão do posicionamento da carne desta espécie no que se refere à sua posição no mercado mundial, suas qualidades intrínsecas, sobre demandas do mercado consumidor relativas ao tipo de produto que consomem, de elementos que interferem na formação de preço de produtos cárnicos, bem como de formas de organização de algumas cadeias, sem a pretensão de apontar para respostas corretas mas, talvez, procurar ajudar a formular as perguntas adequadas.

A apresentação a seguir foi efetuada durante a XVI Expo-Otoño realizada em Corrientes-Argentina em abril/2016 sob forma de “slides” em Power Point que reproduzimos a seguir, acompanhados de alguns comentários sobre os mesmos (que fizemos rapidamente, sem uma revisão mais acurada).

Demanda e Mercado de carne bubalina

Em 2008, os cerca de 180 milhões de bubalinos representavam segundo a FAO, 12% da população de bovídeos do mundo e, enquanto os bovinos cresceram 11% entre 1980 e 2008, os bubalinos neste mesmo período aumentaram 49% .

O consumo de derivados animais é crescente, conforme se verifica na tabela abaixo, com dados da FAO.

Importante destacar que os países com crescimento econômico mais acelerado, como os chamados BRICs, apresentaram um aumento de consumo de todos os derivados animais num ritmo muito superior do resto do mundo, característica que se observara no passado com os chamados “Tigres Asiáticos” que entre 1970-1990, quando apresentavam elevadas taxas de crescimento do PIB elevaram seu consumo de derivados de forma similar.

Estima-se que até 2030 a classe média no mundo, particularmente em função do atual ritmo de crescimento de países de maior população, deve se elevar de 2 bilhões de pessoas em 2012 para 4,9 bilhões e, somente a classe média nos países asiáticos deverão, segundo estimativa da OECD, elevar seus gastos de US$ 4,8 bilhões em 2012 para US$ 32,6 bilhões em 2030 o que projeta pois para uma elevada demanda de produtos de origem animal que teria predominantemente distribuída na Ásia continental, Sudeste Asiático, Oriente Médio, Norte da África e África Setentrional, além da América Central e países andinos, conforme se verifica no mapa abaixo.

Buscando atender esta demanda elevada, a Índia particularmente a partir de 2010 elevou substancialmente sua produção e exportação de carne que, em função de questões culturais que restringem o abate de bovinos, é representada exclusivamente por carne de bubalinos, destacando-se que, parte da população daquele país, os cerca de 177 milhões de muçulmanos passaram também a aumentar seu consumo de carne de búfalos naquele país.

Desta forma, a Índia, a partir de 2013 ultrapassou as exportações brasileiras se tornando o maior exportador de carne bovídea do mundo e o destino destas, conforme se verifica nas áreas destacadas no mapa abaixo, atendem a demanda aumentada dos países asiáticos, do oriente médio e da África sendo que estes mercados representam apenas 22% do mercado brasileiro e 4% do mercado americano, ou seja, a Índia vem absorvendo a maior parte da nova demanda por carne no mundo.

Abaixo uma imagem extraída de um site de uma empresa exportadora indiana, onde se destaca que associam a imagem a carne de búfalo exportada com um produto nutritivo; a uma ausência de risco (provavelmente se referindo tanto à não ocorrência na espécie de doença da vaca louca quanto a reduzir uma eventual imagem negativa sobre a sanidade naquele país), e ao fato de ser “barata”.

Destaque-se, como evidenciado na embalagem à direita, que buscam ainda atender ao mercado muçulmano, no caso de Angola, com um abate Halal (apesar da marca Ci-Vaca, logo abaixo se destaca tratar-se de “buffalo meat”)

Verificou-se em 2013, que nos últimos 4 anos, houve um aumento de 10% nas exportações de carne no mundo, sendo que, no mesmo período, as exportações da Índia cresceram 43% sendo que porém, o preço médio da carne (exceto Índia), forma em média de US$ 2,24/lb, enquanto que o preço médio das exportações indianas foi de apenas US$ 1,24/lb.

Depreende-se, pois, que a carne de búfalo vem sendo difundida particularmente no Oriente, atendendo um mercado consumidor de carne “magra” e sendo seu principal apelo, o baixo preço, imagem que pela elevada escala das exportações deste país, bem como pela forte expansão na demanda da África e Oriente, pode levar a uma associação de uma imagem bastante negativa à carne bubalina produzida no continente americano.

Um estudo do Rabobank de 2005, relaciona o aumento de renda per capita dos países à uma demanda diferenciada de tipo de alimentos. Assim, regiões muito pobres como a África Subsaariana, a base alimentar visa atender à sobrevivência, sendo representado fundamentalmente  grãos e raízes. Num nível acima, por exemplo em países muito populosos com relativamente baixa renda per capita, a alimentação busca supri-los de produtos básicos tais como carnes, laticínios, vegetais e frutas. Num nível superior de renda, os consumidores buscam “qualidade” e se amplia o consumo de alimentos processados. Já nos países mais ricos, verifica-se a crescente procura de alimentos com valores tecnológicos agregados tais como alimentos ditos nutracêuticos ou funcionais, os dietéticos e os orgânicos e de menor risco potencial.

Também a partir dos países mais ricos e em franca disseminação, se amplia a rejeição ao consumo de carne, particularmente à carne vermelha associando-a por vezes questões de saúde ou sanitárias tais como doenças cardiovasculares, incidência de neoplasias, risco de vaca-louca; por vezes a  resíduos de hormônios e outras drogas, ou ao consumo pelos animais de alimentos que “poderiam” competir com o consumo humano, como grãos ou mesmo consumo de alimentos transgênicos com sua imagem potencialmente negativa, sem contar com as questões ambientais negativamente associadas à pecuária tais como a deflorestação que causaria, seu elevado consumo de água e até mesmo o propalado aquecimento global que seria causado pelas eructações dos bovídeos.

A carne bubalina e sua produção

O quadro abaixo destaca algumas das diferenças da composição das carnes bovinas e bubalinas, onde se destaca o baixo teor de gorduras destas ultimas principalmente as saturadas e monoinsaturadas, consideradas de maior risco à saúde bem como de colesterol e calorias, com um maior teor nutritivo no que diz respeito às proteínas, vitaminas e minerais.

Do ponto de vista de risco alimentar, um trabalho efetuado na Itália, comparando o perfil lipídico da carne de búfalos com a carne de animais da raça marchigiana, reconhecidas por apresentarem igualmente uma carne “magra”, evidenciou que os lipídeos presentes na carne bubalina apresentam uma composição considerada mais saudável e com menor índice de aterogenicidade e trombogenicidade, ou seja, com potencial de produzir aterosclerose ou acidentes vasculares.

Com este enfoque ainda, merece destaque um trabalho efetuado por um cardiologista italiano, Giordano, publicado na European Journal of Clinical Nutrition em 2010 em que avaliou 300 pessoas com cerca de 55 anos sendo 100 delas que consumiam regularmente carne de búfalas, 200 delas que nunca haviam comido carne da espécie e para 100 delas se forneceu 600g semanais de carne de búfalos durante um ano. Avaliou-se neste período através de avaliações clinicas e laboratoriais, os parâmetros comumente associados ao risco de doenças cardiovasculares. Verificou-se que os níveis de colesterol eram mais baixos nos consumidores habituais e se reduziram 13% nos novos consumidores. O chamado colesterol bom (HDL) era 42% superior no grupo de consumidores habituais, não se alterando com um ano de consumo. Já os níveis de triglicérides se reduziram 16% .

Trabalhos com nutrição humana, para possuírem maior significância demandam replicações e envolvimento de amostragens muito maiores que as verificadas pelo autor mas, suas observações são importante indicador de que o consumo de carne da espécie traria efeitos benéficos na redução de riscos cardiovasculares, destacando-se que drogas utilizadas na redução do colesterol “ruim”, dos triglicérides e da elevação do colesterol “bom”, como a Sinvastatina, tem efeito esperado similar ao observado com o simples consumo de carne de búfalos e, para se ter uma dimensão de uma demanda neste sentido, estima-se que somente no Brasil, existiriam cerca de 30 milhões de pessoas com elevado risco cardiovascular.

Demandas e avaliação pelo consumidor da carne bubalina

Inegavelmente, a percepção do consumidor á fundamental no desenvolvimento de qualquer cadeia comercial. Neste sentido, destacamos algumas pesquisas efetuadas com consumidores sobre suas demandas com relação à carne (bovina) onde verificamos grande concordância de resultados em trabalho efetuado em Botucatu-SP, em Brasilia-DF e, também nos EUA, razão pela qual apresentamos alguns resultados dos primeiros.

Indagado sobre o que busca ao adquirir um corte de carne bovina, os consumidores destacaram a qualidade como principal fator motivador, relegando o preço a um plano bastante inferior. Lembrando que a amostra era representativa do consumidor no dia-a-dia.

Buscando especificar o que na sua percepção representava a “qualidade” da carne, a resposta, conforme se observa no quadro a seguir relacionou-a à cor vermelho (80%), à consistência e presença de pequena capa de gordura. Destaque-se aqui que não houve nenhuma referência à associação de gordura entremeada nas fibras (marmoreio) com percepção de qualidade, destacando-se que a base era de consumidores regulares e não de “carne para churrasco”.

Outro questionamento na pesquisa, era sobre quais características o consumidor associava à qualidade após o preparo da carne. O resultado, apresentado no quadro a seguir, onde se destacam o sabor e a maciez da carne como principais atributos da carne preparada.

Buscando aferir as características da carne de búfalos nhoque se refere aos aspectos destacados, apresentamos algumas observações de um trabalho efetuado comparando-se a carne de nelores, de mestiços nelore x sindi e búfalos da raça mediterrâneo onde se verificou, no que se refere à intensidade de cor vermelha, que não havia nenhuma diferença entre os cortes das diferentes amostras, havendo menor intensidade de amarelo na carne bubalina, provavelmente pelo menor teor de gordura e da ausência de caroteno.

Quanto á maciez, aferida pela força de cisalhamento (força necessária para o rompimento de fibras da carne), o que se verificou foi que a carne bubalina apresentou a menor resistência ao rompimento, ou seja, mais macia.

Além das propriedades objetivas, aferidas acima (intensidade da cor vermelha e maciez), um outro trabalho efetuado na Amazônia, buscando a aferir a percepção de consumidores em testes cegos sobre diversos atributos de vários cortes de carne bovina e bubalina preparadas a partir do abate de animais jovens bovinos e bubalinos, para os quais de atribuíam “notas” a cada atributo e, ao final, aferiam-se a preferência média para uma ou outra espécie de cada corte considerado, observou-se o seguinte:

Verifica-se, pois, a predileção dos consumidores por alguns cortes bovinos como a picanha e alcatra e de bubalinos em cortes como filé, contra-filé, lagarto e costela.

Em que pese eventuais críticas metodológicas aos estudos e, combinando-se as características que buscam o consumidor na apresentação do produto, após seu preparo e na percepção de seu consumo evidencia-se não haver rejeição objetiva alguma à carne bubalina e, aparentemente, em certas situações, destaca-se até mesmo alguma predileção pela mesma.

Outro aspecto a se destacar é a pequena escala de produção da carne da espécie frente ao mercado de outras carnes, em particular a bovina. Corroborando este aspecto, efetuamos uma simulação do potencial de produção de carne bubalina tomando como exemplo o rebanho/mercado no estado do Rio Grande do Sul.

Utilizando-se a estimativa de consumo das famílias apenas, mesmo com abate parcial de fêmeas, a carne bubalina produzida atenderia apenas 1,4% da demanda .

Proposições sobre o posicionamento da carne bubalina

Do até agora exposto, parece claro a necessidade de uma diferenciação da carne bubalina da bovina e, principalmente da imagem de commodity barata que vem sendo difundida pelas exportações da Índia.

A associação de algumas características positivas à carne bubalina e sua disseminação no inconsciente coletivo através de ações com uma mensagem padronizada em todas as oportunidades talvez contribuam para sua difusão.

Uma sugestão seria talvez: “ Carne de búfalo: saborosa, saudável e natural”

Neste sentido, o NT Buffalo Industry Council, entidade australiana de fomento à atividades agroindustriais, após diversas pesquisas propôs para uma difusão da carne bubalina, a criação de uma certificação (criou e registrou a marca básica de um “selo de qualidade”, o “TenderBuff”) , e estabeleceu rígidas regras de sua produção, abate e processamento (abaixo sinteticamente reproduzidas) , diferenciando um produto básico (jovens até 30 meses) e um tipo “premium” (animais de 250 a 375 kg) e que fosse ainda estabelecida “padronização” de seu processamento.

Como mensagem básica sobre as características da carne de búfalo a ser difundida firmou: “Carne de búfalos é ideal para pessoas preocupadas com uma alimentação saudável e que não abrem mão do prazer de consumir carne vermelha”

De certa forma, o incipiente mercado de carne bubalina vem procurando associar mensagens neste sentido em suas veiculações como a observada na publicidade de BufalosBeef da Colômbia que mostra a imagem de uma carne suculenta e o texto remete a “Natural” e “Saudável”.

O mesmo ocorre com o site de outra empresa que processa e distribui carne de búfalos em Boituva-São Paulo que apresenta cortes bem preparados, apetitosos e procura destacar seu caráter “saudável”.

Foco semelhante uma processadora e distribuidora por atacado em São Borja-RS, que apresenta a seus clientes institucionais um lote de carcaças bem acabadas e padronizadas, identificadas como búfalos:

E no material de apoio destaca os aspectos: Sabor, Saúde e maciez, além de mostrar imagens de cortes “limpos”, bem avermelhados.

Composição de margens na cadeia de carne                   

 Área de evidente conflito nesta cadeia certamente é a relação frigorífico-criador, com queixas sobre diferenciação de preços com bovinos, excesso de toalete, jejum, etc e, em contra-partida os frigoríficos questionando o menor rendimento de carcaça, a dificuldade de manejo e comercialização do couro, entre outros.

A realidade é que hoje a margem do frigorífico na comercialização da carne bovina é dependente de diversos componentes além do animal em si. A simples soma de cotações de preço de cortes de dianteiro, traseiro e serrote somados é usualmente inferior à remuneração recebida pelo produtor e, a diferença, coberta pela comercialização de couro, sebo, miúdos, derivados, sub-produtos.

Na busca de maior eficiência do custo global, os frigoríficos principalmente no Brasil Central, acabam buscando abater animais maiores, onde para um mesmo custo fixo de abate, desossa, embalagem, resfriamento e transporte, maior volume de carne é produzida. Realidade diversa se observa no sul do Brasil e Argentina, por exemplo, onde os animais são abatidos usualmente mais jovens e leves o que proporciona usualmente carnes mais macias.

Num levantamento efetuado no estado de Mato Grosso de preços praticados no atacado e varejo, ficou evidente que a maior composição do preço pago pelo consumidor acaba sendo absorvido pelo varejo que fica com nada menos que 65% do valor pago pelo consumidor, contra 30% do produtor e apenas 5% no frigorífico.

Igualmente se destaca a influência do segmento varejista ao se comparar o preço pago pelo consumidor com a remuneração recebida pelo pecuarista.  Neste sentido, um acompanhamento de preços em Santa Maria-RS em 2007 mostrou o seguinte comportamento a cada quadrimestre.

Nota-se que no primeiro quadrimestre, enquanto o preço permaneceu estável ao consumidor, o preço ao produtor mostrou-se em queda. Já no período de outo-inverno, apesar da queda de preço no varejo, a cotação ao produtor subiu. No último quadrimestre daquele ano houve correlação entre as duas cotações. Evidencia-se, pois, a inexistência de uma exata correlação entre os dois preços que são em última análise, controlados em parte pelos varejistas.

Produtos e Marcas

Fenômeno relativamente recente é a busca de diferenciação de carnes bovinas através de “marcas”. Algumas procuraram associar tais marcas a critérios objetivos tais como a raça de origem (Angus, Wagyu, Piemontês, etc). Outras tentam agregar valor com certa diferenciação tais como a certificação orgânica, ou o projeto Taeg com cruzamentos com Rubia Galega espanhol, ou ainda no seu preparo como a Maturatta.

Numa outra vertente, surgem marcas que buscam associar uma imagem positiva ao produto através do “licenciamento” da marca. É o caso por exemplo da carne “Bassi”, em que o famoso açougueiro e proprietária de renomado restaurante licencia sua marca a cortes nobres preparados e distribuídos pelo frigorífico Marfrig em que nenhuma referência à origem da carne é feita.

De forma similar, o exemplo na marca “Montana”, também processada pelo mesmo Marfrig e licenciada pela dupla de cantores sertanejos Chitãozinho e Xororó, sem nenhuma tradição do mercado de carne e que também não apresenta na descrição do produto nenhuma referência  à origem ou características dos animais com os quais são produzidos tais cortes.

Certamente os produtos devem seguir um critério pré-estabelecido de tipos de animais utilizados, cortes, formas preparo etc, mas tais propriedades parecem não ser o foco explicitado ao consumidor.

A importância destas marcas fica patente ao se analisar as ofertas num site da internet de delivery que anunciava os de cortes de picanha (que fora padronizados por kg)

Nota-se que, enquanto a peça “sem marca” era vendida por R$ 26,01/kg, os cortes “com marca” eram vendidos pelo dobro ou mais, sendo R$ 56,24 a picanha “Montana” e R$ 72,44 a picanha Bassi”. Além da marca, qual seria efetivamente a diferença entre elas ? Notar ainda que alguns aspectos associados também emprestaram valor tal como a menção de “importada” que permitiu que a picanha mesmo que “congelada” tivesse elevado valor ou ainda a associação ao termo “orgânica” que valorizou expressivamente o corte.

Interessante notar que, ainda que o esforço na divulgação da carne de búfalos em nosso meio, a mesma traz em si uma imagem bastante positiva, como se depreende da oferta efetuada por um site de delivery de carnes, onde diversos cortes de contrafilé eram oferecidos com preços variando entre R$ 19,47 para uma porção sem identificação até R$ 30,47 por um corte maturado e, no mesmo momento, o corte embalado à vácuo de corte de búfalo da Cowpig era vendido a preços similares ao maturado.

E, quando apresentado num corte especial, o Prime Rib, sua cotação atingiu mais de 40%

De forma similar, um outro comerciante virtual de carne, distribuídos de cortes de Angus, reconhecidamente uma raça que produz carne de excelente qualidade, apresentava as ofertas abaixo:

Note-se que, à exceção da costela, os demais cortes apresentavam cotações iguais ou significativamente maior para a carne bubalina.

Estes exemplos nos dão conta que as eventuais diferenças havidas entre os produtores e frigoríficos são relativamente pequenas diante do potencias de agregação de valores que adviriam da adoção de um programa adequado de marketing da carne da espécie envolvendo todas as etapas da cadeia, o que não deve ser confundido com simples propaganda. Mais ainda ao se notar que quando convenientemente preparada, já possuem uma certa aceitação espontânea como se depreende das cotações ofertadas.

Sistemas de Organização da Cadeia da Carne

 Outro aspecto que nos parece relevante é a forma que se apresentam a organização de certos segmentos desta cadeia.

No sistema convencional é efetuada a compra de animais acabados no mercado pelos frigoríficos, diretamente ou através de intermediários. Neste sistema usualmente é imposto ao produtor algum tipo de deságio maior ou menor de acordo com a região e com pequena frequência, são apartados alguns cortes particularmente de cortes “nobres” que são ofertadas como búfalos.

Um sistema alternativo é a verticalização total (ou preferencial), com o produtor abatendo e processando a carne de seus animais e comercializando os cortes no mercado, complementando eventualmente com a aquisição de animais de terceiros.

Estes são alguns exemplos de sistemas com verticalização preferencial e, até onde eu tenha conhecimento, tais modelos não se sustentaram no Brasil, sendo que o produtor Venezuela possui um rebanho muito grande e o da Colômbia, também com grande rebanho, mantem um ciclo mais extenso chegando a produzir hambúrguer e comercializa-los em lanchonetes próprias.

Outra abordagem da cadeia é o processamento da carne, como já apontado no exemplo na Venezuela (Bufalo Sentao), acima à direita e outros exemplos  como na Itália (acima à esquerda), a produção de embutidos (linguiças) pela Cooperbufalo do RS abaixo à esquerda ou a operação na Argentina do La Filiberta que produz embutidos e exporta para casas comerciais na Alemanha.

Bastante conhecida no Brasil é a estruturação da operação através da Cooperativa de Produtores (Cooperbufalo no RS), que opera coordenando toda a cadeia, negociando cortes cárneos para varejistas.

Outra forma de abordagem, particularmente em função de uma baixíssima escala de produção tem, por exemplo, a raça japonesa de Kobe, a Wagyu, que produz uma carne bastante macia mas com enorme quantidade de gordura entremeada o que, para os padrões usuais do consumidor resultaria em ampla rejeição no mercado.

A estratégia utilizada foi de criação de uma parceria com conhecida churrascaria no Brasil, o Rubayat, que a incluiu em seu cardápio e promoveu seu consumo junto a uma clientela de maior poder aquisitivo, impulsionando a comercialização em canais especializados e a um preço de 5 a 10 vezes mais caro que os cortes similares de outras raças bovinas.

Em menor escala, se verifica um exemplo similar na Costa Rica, onde um produtor local abate, processa e prepara a carne em seu restaurante onde também comercializa cortes congelados.

Outra abordagem são parcerias entre distribuidores e produtores visando o atendimento de nichos específicos. Um exemplo foi a associação da Fazenda Ibirocay de Uruguaiana-RS com uma “grife” de carne, a Wessel, que produzia cortes especiais a partir de terneiros recém desmamados, com a criação da marca Baby Bufalo.

Considerações Gerais

A produção e consumo de carne no mundo é crescente, particularmente nos países com maior crescimento do PIB per capita e boa parte deste aumento vem sendo atendido com carne de búfalos produzidas na Índia, muito mais pelo seu baixo preço do que por qualidade. A expansão desta imagem para o Ocidente certamente resultará num impacto muito negativo neste  mercado.

Uma forma de se contrapor a isto é efetivamente passar a produzir um produto com diferenciação suficiente que permita ao consumidor emprestar ao mesmo uma imagem diferenciada da carne bovina. Aparentemente, mesmo que com cortes mais nobres, se tem verificado que a espécie goza de bom conceito junto ao consumidor, que parece disposto a pagar melhor por isto como se verifica em algumas iniciativas comerciais.

Inegavelmente há indicadores que apontam a carne de búfalo com características que permitem enquadrá-las como “funcionais” e saudáveis, desta forma, atender aos anseios de parcela da população de melhor poder aquisitivo que buscam alimentos com valores agregados.

Como se apontou, desde que provenientes de animais jovens e bem terminados, produzem cortes que teriam boa aceitação pelos consumidores.

Questões de escala, como se viram alguns exemplos, poderiam ser contornadas com uma abordagem diversa das cadeias convencionais de carne bovina.

Uma mensagem uniforme sobre o produto, bem como a elaboração de produtos através de padronização de sua produção, condições de abate, processamento e maturação, com direcionamento específico na atenção das expectativas literalmente expressas pelo consumidor no dia-a-dia, bem como certificar tais produto poderiam talvez representar uma diferenciação expressiva e associação bastante positiva. Um mote geral talvez devesse ressaltar o “saudável, saboroso e natural”.

Mesmo que se organizem de formas diversas as cadeias, a adoção de uma mensagem geral e produtos uniformes poderiam ser de valia. A criação de uma “marca” da espécie e preservar seu padrão poderiam agregar valor expressivo aos produtos que atendam a tal  padrão e sejam certificados por isso. Como se comentou no início, não se tem, ainda, as respostas corretas , mas quem sabe, comecemos a elaborar as perguntas adequadas.

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